O Sistema

Capítulo 3: Chão

por @Karina Silva

A mentira precisava de chão. Foi essa a conclusão de Isis na terceira noite de trabalho, olhando para o mapa adulterado pela metade. Dados de tela envelheciam rápido: uma rota de cobrança podia ter mudado, um comércio podia ter fechado, e qualquer detalhe podre demais denunciaria a fraude para quem conhecesse o território de perto. Para mentir sobre um lugar, ela precisava pisar nele de novo.

Além disso, e essa parte Isis demorou a admitir para si mesma, fazia quatro meses que não via a mãe.

Desceu do ônibus no ponto da igreja, no meio da tarde de um sábado abafado. O bairro tinha cheiro de sábado: carne na chapa em algum quintal, sabão de tanque, o baixo de um paredão testando volume três ruas adiante. Ela vinha de tênis gasto e mochila nas costas, indistinguível de qualquer menina voltando do estágio, e era exatamente essa a intenção. O Fantasma tinha três anos de vida. Isis, ali, tinha vinte e dois, e todo mundo conhecia a filha da Sônia.

A quadra da escola estava aberta. Do portão, ela avistou as mesas de plástico enfileiradas, cartazes de cartolina, uma fila de gente segurando pasta e documento. No meio da movimentação, dirigindo o trânsito de cadeiras com um sorriso de quem nasceu para aquilo, estava Caio.

Ele a viu antes que ela decidisse se entrava.

— Não acredito. — Ele largou a pilha de papéis em cima da mesa e atravessou a quadra de braços abertos. — A senhorita criou coragem de descer do asfalto.

— Eu moro a quarenta minutos daqui, Caio.

— Quarenta minutos que viraram quatro meses. — O abraço apertou mais do que ela esperava. Ele recuou, segurando os ombros dela, examinando. — Tá magra. Tá dormindo?

— Tô trabalhando.

— Isso não responde o que eu perguntei.

Isis desviou para os cartazes na parede da quadra. Mutirão de documentação. Aula de reforço às terças e quintas. Assembleia da associação de moradores, dia vinte e três, pauta: iluminação da subida e regularização das casas do morro.

Cada linha daqueles cartazes estava na lista que alguém tinha encomendado a ela. Nomes de quem organiza. Isis sentiu o papel do contrato pesar dentro da mochila onde não estava.

— A assembleia vai lotar — disse Caio, seguindo o olhar dela. — O pessoal anda assustado. Apareceu um povo aí oferecendo segurança pros comércios. Cartãozinho, uniforme, conversa mansa. Tu sabe como começa.

— Sei como termina.

— Então tá sabendo mais que muita gente aqui, que jura que é proteção de verdade. — Ele baixou a voz, mesmo com a quadra barulhenta. — Os meninos da boca sumiram da praça essa semana. Sumiram, Isis. Aquele povo não sai de férias.

Ela registrou a informação com o rosto parado de quem ouve fofoca de vizinho. Por dentro, o cronograma inteiro se reorganizou. A empresa de segurança patrimonial não estava esperando o mapa para começar. O mapa era para a segunda fase. A primeira já estava na rua, de cartãozinho e uniforme.

— E tu, hein — Caio cutucou o ombro dela —, sumida desse jeito. A dona Sônia fala de ti na fila do pão que nem quem reza. Minha filha trabalha com computador. Minha filha vai comprar casa pra mim.

— Ela fala isso?

— Toda semana. — Ele sorriu, mas o sorriso veio com um resto de coisa séria por baixo. — Ninguém sabe direito o que tu faz, sabia? Computador é resposta de mãe. Não é resposta tua.

— Segurança de sistemas. Auditoria. Coisa chata de explicar.

— Hm. — Caio a olhou por um segundo a mais do que a mentira comportava, e Isis sustentou, porque sustentar era o ofício dela. Ele deixou passar. — Aparece na assembleia dia vinte e três. Falta gente que entenda dessas paradas de câmera, de internet. O pessoal quer botar câmera comunitária na subida e ninguém sabe nem por onde começar.

Câmera comunitária. Isis quase riu do tamanho da ironia, mas o que saiu foi outra coisa, uma pergunta que ela não tinha planejado fazer.

— Quem tá puxando essa ideia das câmeras?

— A Célia. Quem mais? — Caio riu. — Sessenta anos gritando com todo mundo. Agora quer gritar com prova em vídeo.

A casa da mãe cheirava a feijão novo e amaciante, o cheiro exato dos últimos vinte anos. Sônia abriu a porta, olhou a filha da cabeça aos pés e proferiu o diagnóstico antes do beijo.

— Tá magra.

— O Caio já falou.

— Então tá todo mundo enxergando, só tu que não. — Ela puxou Isis para dentro pelo braço, como se a filha tivesse doze anos. — Senta. Tem comida pronta e tu vai comer agora, porque comida de aplicativo não é comida, é embrulho.

Isis sentou. Havia uma paz específica em ser mandada, uma folga que ela não encontrava em lugar nenhum do resto da vida. No mundo do Fantasma, todas as decisões eram dela, o tempo inteiro, sem exceção e sem descanso. Naquela cozinha, a única decisão disponível era repetir ou não repetir.

— A senhora tá precisando de alguma coisa? — perguntou, entre uma colherada e outra. — Dinheiro, remédio, alguma coisa da casa?

— Preciso que tu apareça. — Sônia sentou na cadeira em frente, descascando laranja sem pressa. — E preciso saber quando tu vai me contar o que anda te comendo por dentro.

— Trabalho, mãe. Só isso.

— Isis. — A mãe pousou a faca. — Eu criei tu sozinha nessa casa. Eu sei a diferença entre cansaço de serviço e cansaço de segredo. Tu tá com os dois.

O relógio da parede, um galo de plástico comprado na loja de um real, tiquetaqueou um tempo comprido. Isis olhou para o prato. Havia uma versão desta conversa em que ela contava tudo. A versão durava três frases antes de destruir a paz daquela cozinha para sempre, porque mãe que sabe vira mãe que teme, e mãe que teme vira rastro. Amor, no mundo em que Isis tinha se metido, era vetor de ataque.

— Quando esse projeto acabar — disse, por fim —, eu tiro férias. Venho passar um tempo. Aí a gente conversa.

Sônia a estudou com aqueles olhos que liam boletim escolar atrasado a dez metros de distância. Depois recolheu a casca da laranja e assentiu devagar, do jeito de quem aceita o acordo sem acreditar no prazo.

— Vou cobrar.

— Eu sei.

— E leva marmita quando for embora. Embrulho, não. Comida.

O mercadinho de dona Célia ficava no caminho do ponto, e Isis entrou para comprar o refrigerante que não queria, porque precisava ver com os próprios olhos uma esquina que no mapa dela constava como ponto de cobrança. A sineta da porta anunciou sua entrada, e dona Célia levantou os olhos por cima dos óculos.

— Olha ela. A que conserta as coisas.

— Boa tarde, dona Célia.

— Boa nada. — A velha apontou o queixo para a rua. — Tá vendo aquele carro branco ali na esquina? Terceira vez essa semana. Fica parado, ninguém desce. Na quinta desceu um de colete falando de segurança, plano de proteção pro comércio. Eu disse que meu plano de proteção é São Jorge e uma peixeira, nessa ordem.

Isis olhou pelo vidro. Sedan branco, película escura, motor ligado. Ela memorizou a placa em meio segundo, um reflexo tão automático quanto respirar, e no mesmo meio segundo compreendeu que aquele carro confirmava tudo: a primeira fase não estava chegando ao bairro. Já estava dentro.

— A senhora falou isso pra ele? Da peixeira?

— Falei e repito. — Dona Célia cruzou os braços. — Eu pago o que sempre paguei pra quem sempre cobrou, que ao menos é cria daqui e conhece minha filha de batismo. Agora esse povo de fora, de colete, com crachá de mentira? Na minha porta não entra.

O erro dela, pensou Isis com uma pontada fria, era achar que existia escolha de fornecedor. O modelo de negócio que vinha aí não aceitava concorrência, e a peixeira de dona Célia contra aquilo tinha o mesmo valor que os cartazes de cartolina do Caio: coragem em material perecível.

A sineta tocou de novo às costas dela.

Robertinho entrou sem pressa, tênis limpo, e o ar do mercadinho mudou de densidade do jeito que sempre mudava. Ele cumprimentou dona Célia com um aceno de cabeça e deixou os olhos pararem em Isis um instante além do casual.

— A moça do computador — disse ele, com o meio-sorriso de sempre. — Sumida.

— Trabalhando fora.

— Fazem falta aqui uns talentos assim. — Ele pegou uma bala do pote sobre o balcão, sem pagar, um gesto pequeno de dono. — Cê viu o movimento aí fora. Tempo fechando. — Desembrulhou a bala com calma. — Quem é rápido escolhe cedo pra que lado corre. Depois que a chuva cai, todo mundo escolhe apressado, e escolha apressada sai cara.

— Eu só conserto roteador — respondeu Isis, e a frase saiu redonda, polida por anos de uso.

Robertinho sorriu de verdade dessa vez, jogou a bala na boca e saiu com a mesma calma com que entrara. Pelo vidro, Isis o viu passar pelo sedan branco sem olhar, sem acenar, sem alterar o passo em um milímetro sequer. E foi justamente essa indiferença perfeita demais que fez o estômago dela afundar.

Ninguém ignora tão bem assim um carro estranho parado no próprio território. A menos que o carro não seja estranho. A menos que a cobrança antiga e o povo de colete já estivessem, por baixo do pano, costurando a transição.

O mapa que tinham encomendado a ela não era para uma invasão. Era para uma fusão. E fusão, Isis sabia, era muito pior: guerra tem dois lados atrapalhando um ao outro. Fusão tem cronograma.

No ônibus de volta, com a marmita da mãe pesando na mochila e a placa do sedan repetindo na cabeça feito um refrão, ela abriu o bloco de notas do celular e escreveu uma única linha, curta o bastante para não significar nada se alguém lesse por cima do ombro.

Dez dias era o prazo deles. O meu acabou hoje.


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